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Aprenda a debater (pt 2) - Use falácias, mas com cuidado

Com o acesso a internet, muita gente se sente especialista em debates. Certamente você já viu ou ouviu alguém citar a dialética erística de Arthur Schopenhauer ou o guia de falácias do Stephen, mas afirmo sem medo de errar que a esmagadora maioria destas pessoas nunca leu estes livros, no máximo os verbetes da Wikipédia sobre o assunto.

Tenho dedicado grande parte dos meus dias nos últimos quatro anos a observar padrões de discussões online. Às vezes eu só leio, outras vezes faço provocações e jogo iscas para testar reações. Houve diversos casos nos quais eu mesmo participei ativamente da discussão para testar certos limites argumentativos. O que percebi, entre outras coisas, é que quase ninguém entende o que realmente é uma falácia. É por isso que com frequência as pessoas confundem o ad hominem com um xingamento, e também é por isso que muitas vezes elas acreditam que o simples fato de usar o ad hominem ou qualquer outra falácia é, necessariamente, um desabono.

Felizmente, fora do mundo dos "especialistas" políticos do Facebook, quase ninguém dá a mínima para isso. É aí que cabe a possibilidade de explorarmos certas habilidades. Usar bem uma falácia, saber empregá-la no momento certo e utilizá-la com a finalidade adequada é uma arte que poucos dominaram até hoje, e aqueles que dominaram quase sempre se deram muito bem.

1 - A verdadeira definição de falácia:

Uma falácia é uma inferência lógica enviesada, não necessariamente falsa, mas também geralmente não totalmente verdadeira. Ela pode ser utilizada em vários contextos e sob várias formas, e é por isso que as falácias têm nomes. Um ad hominem, por exemplo, não é um xingamento. Xingar alguém é apenas ofensa, não é falácia. O que caracteriza o ad hominem é um argumento voltado à pessoa que fala, não ao que ela diz. Se você desqualifica o argumento do sujeito com base em sua índole ou em atos por ele cometidos, então seu argumento é uma falácia ad hominem, e toda falácia pode ser verdadeira ou falsa, ela ainda será, do ponto de vista argumentativo, uma falácia.

A generalização, por exemplo, é outro tipo de falácia, mas ela não é necessariamente errada ou falsa. A generalização, em muitos casos, pode ser usada como um exercício plenamente racional, mesmo porque é um tipo de raciocínio que em muitos casos se aplica como regra. Como quase todas as regras possuem algum tipo de exceção, a generalização não é errada em si. É como dizer que "mulheres preferem comédia romântica do que filmes do Tarantino", o que embora não se aplique a todas as mulheres do mundo - porque é generalização - ainda assim se aplica a uma grande parte delas.

2 - Por que usar falácias pode ser um bom artifício?

Como sempre digo por aqui, as discussões políticas em geral (aqui é uma generalização) possuem um só propósito: superar o adversário para conquistar a plateia. Deste modo, você deve partir sempre do princípio sob o qual nem todos os espectadores de uma discussão possuem os mesmos níveis de inteligência e conhecimento, e também deve ter como premissa básica que seu objetivo no debate nunca é o de convencer seu próprio adversário, mas aqueles que assistem.

Sendo assim, na maioria dos casos ter ou não ter razão é irrelevante, bem como é quase sempre irrelevante se você está dizendo a verdade ou não. O que vai contar, no fim, é a capacidade de cativar aqueles que acompanham a discussão, e isso requer habilidades retóricas, não conhecimento técnico.

Quando se está em uma discussão política na qual há a possibilidade de aplicar um argumento falacioso, e se ele for útil, deve ser feito.

3 - Exemplos:

Imagine-se em um debate sobre violência contra a mulher com o Murilo Cleto, aquele pilantra da Revista Fórum acusado de agressão física e psicológica por sua ex-noiva. A autoridade dele no assunto é a mesma que um pedófilo teria ao debater sobre violência sexual contra crianças.

Neste caso, não apenas seria válido, mas seria também totalmente correto e até necessário jogar na cara dele o fato de que ele é um agressor de mulheres, e assim invalidar tudo o que ele diga em defesa de sua tese, seja ela qual for. O mesmo valeria ao discutir sobre pedofilia com um pedófilo, ou discutir criminalidade com um latrocina. Usar esse tipo de argumentação seria, literalmente, uma falácia ad hominem, e ainda assim ela seria totalmente válida.

Um apelo à emoção também é um tipo de falácia que deve ser usada. Embora ela seja tipificada como um tipo específico, eu pessoalmente trato como um conceito amplo, dentro do qual estão inclusas outras falácias, tais como: apelo à multidão; apelo ao ridículo; apelo à vaidade; apelo ao medo. Outra forma de apelo à emoção que não tem uma definição formal, mas que considero útil em determinadas ocasiões, é o apelo à esperança.

David Horowitz, que escreveu "A Arte da Guerra Política", colocava os apelos ao medo e à esperança como antagonistas. No caso, você deve apelar ao medo das pessoas quando se refere ao inimigo, e deve apelar à esperança delas sempre que se refere a si mesmo. Essa tática é empregada com rigor na política partidária, e ela pode ser observada na campanha de Barack Obama, em 2008, ou na campanha de Dilma Rousseff em 2014, embora de forma mais dispersa.

O apelo à vaidade, por sua vez, tem uma função bem específica, que é provocar o seu inimigo atingindo-lhe o ego. Se estamos diante de alguém que é arrogante e prepotente, normalmente cabe uma provocação do tipo: "Você é tão inteligente, como pode realmente acreditar nisso?" Neste caso, não importa se o inimigo acredita ou não no que diz, o que importa é que ele pareça acreditar, que ele defenda aquilo, e que seja ególatra o suficiente para morder a isca. Normalmente a reação diante de provocações assim é defensiva, e quando seu inimigo fica na defensiva ele te dá a chance de atacar um pouco mais.

Há também a falácia de definição obscura, geralmente usada com metáforas que nem sempre fazem muito sentido. Ela serve para uma situação na qual você queira impressionar pela linguagem, como fazem os "filósofos" de botequim ao estilo Leandro Karnal. Diga uma frase como "O aprendizado é como as andorinhas, voam somente em uma parte do dia." Isso, na prática, não significa nada, eu acabei de inventar, mas serve para distrair a plateia. Muita gente tentará interpretar o que você diz, mesmo que não signifique coisa alguma.

EXCEÇÃO:

Conheça seu adversário e a plateia, evite usar falácias demais quando você não tiver certeza sobre quem as está ouvindo. Se você subestimar o oponente e os espectadores, isso pode se virar contra você. No caso de uma discussão em ambiente acadêmico, por exemplo, a falácia pode ser usada com moderação, mas geralmente um apelo emocional tende a surtir menos efeito - embora o ad hominem, se bem empregado, ainda possa funcionar. 

Ridicularizar um oponente é quase sempre útil, e se você fizer de forma que pareça engraçado pode conquistar a plateia e fazê-la rir da situação como em uma comédia stand up. No entanto, se você soar agressivo demais, se sua ridicularização pegar muito pesado, isso pode deixar o clima mais tenso e o efeito pode ser inverso ao desejado, fazendo com que sintam compaixão com seu inimigo. A ridicularização precisa ter uma medida, e essa medida pode variar conforme a situação. Se você exagerar, vai acabar tripudiando em cima do outro e vai parecer prevalecido.
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