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Liberais brasileiros têm que parar de focar em "problemas" de primeiro mundo e colocar os pés em nossa realidade

Quando você está na Finlândia, na Suíça ou mesmo no estado da Califórnia, suas principais preocupações podem ser se o carro tem ou não ar condicionado, se a picanha será na chapa ou na brasa, se você esqueceu de desligar a TV quando saiu de casa ou se você tem o direito de usar seu nome social na identidade.

Por outro lado, se você estiver no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, ou mesmo em Buenos Aires, suas preocupações serão outras. No Rio você estará preocupado com um sem número de trombadinhas querendo roubar sua bolsa, ou com a iminente possibilidade de arrastões na praia. Em São Paulo você estará preocupado com os constantes engarrafamentos, com os ruídos intermináveis da cidade ou mesmo com a possibilidade de contrair uma doença pulmonar devido a poluição.

Claro que aqui estou apenas estereotipando, mas o que quero dizer é que as pessoas dentro de suas respectivas realidades possuem preocupações primárias diferentes. Em boa parte da Europa, onde as pessoas vivem bem melhor do que aqui, as prioridades são outras. Lá é perfeitamente normal discutir o uso de nome social na identidade, ou a questão do racismo, ou mesmo outras questões mais ou menos relevantes. Aqui, no entanto, nós temos problemas bem maiores para resolver...

Quando você vive em um país que tem corrupção, violência e roubalheiras generalizadas, não tem nem como saber exatamente qual é o nível de racismo ou de homofobia presentes no recinto. Como saber, entre mais de 60 mil homicídios não solucionados por ano, quantos deles foram motivados por ódio racial ou por preconceito homossexual? Se não sabemos nem quem cometeu o crime, como saber a motivação?

Os liberais daqui precisam se conectar com a realidade. As pessoas têm problemas muito maiores do que a "liberdade econômica" ou a dificuldade de se abrir uma empresa. Não é que eu despreze estes problemas, porque eles ainda são problemas, mas é óbvio que isso não tem apelo algum. A sensação de insegurança constante nos grandes centros urbanos, por exemplo, é algo muito grave, e isso afeta quase a totalidade das pessoas. Nós, como liberais e libertários, prezamos pelo direito de propriedade, nós vemos isso como um direito inviolável. Por que não nos dedicamos, prioritariamente, a resolver este tipo de problema que afeta especialmente as pessoas mais pobres e deixamos para discutir os "enormes problemas" sociais ditados pela extrema-esquerda depois?

Outra questão que é prioritária, por exemplo, é a reforma tributária. Nós pagamos impostos demais, isso pesa no bolso. Este também é um problema que afeta praticamente todos os brasileiros, especialmente porque não temos, como na Suécia ou na Noruega, um sistema público minimamente decente. Isso é prioridade, não a discussão sobre o direito de usar saia na escola.

O que acontece com os liberais brasileiros, além do fato de ficarem chupinhando coisas de europeus, é que eles se tornaram reféns da obviedade e ficam tentando entrar em discussões que foram pautadas pela extrema-esquerda. Nós podemos - e devemos, aliás - trilhar outro caminho. Se começarmos a nos conectar com pessoas de verdade, se começarmos a compreender quais são seus problemas maiores e se nos dedicarmos a trazer soluções, conseguiremos em um curto período de tempo a aprovação maciça da sociedade. Por outro lado, se continuarmos nessa baboseira ridícula de seguir aquilo que a esquerda determinou que fosse seguido, se continuarmos com os debates sobre aqueles temas que a esquerda estipulou, vamos apenas perder.

O liberalismo brasileiro precisa ter os pés na realidade brasileira, se é que queremos algum sucesso. Para quem quiser o fracasso, basta continuar exatamente o que se está fazendo agora. Neste caminho o fracasso virá garantido no final.

ADENDO: Algumas pessoas questionaram a menção a "liberdade econômica" feita no texto, alegando que esta seria, na verdade, uma questão prioritária para um país de terceiro mundo. A verdade é que sim, mas também é verdade que não. É preciso entender que o povo não entende muito bem o que é isso. Fala-se em liberdade econômica, mas isso é uma abstração que só se pode compreender quem já tem conhecimento do assunto, e estas pessoas com conhecimento são poucas. 

Enquanto liberais, nós temos que entender como as pessoas nos veem. Falar de economia é "chato", embora necessário. Nossa abordagem do tema precisa ser tangente, é necessário encontrar meios de atingir as pessoas de forma que elas entendam. Em vez de falar em liberdade econômica, algo que é abstrato e para muitos é até um enigma, falemos em redução de impostos, taxas e encargos.

Há também outro ponto a ser considerado em um país como o nosso. Aqui, nós vivemos em clima de constante insegurança pública e até mesmo insegurança jurídica. Nós enfrentamos a impunidade quase plena em um estado de anomia social. Pessoas matam outras pessoas, roubam, estupram, fazem todo tipo de violência, e não há uma punição adequada. De que adiantaria ter liberdade econômica plena em um cenário no qual a sua propriedade será frequentemente roubada? De que serve ter um empreendimento se alguém, a qualquer momento, pode simplesmente te assaltar a luz do dia e sair impune?

É nisso que temos que pensar.
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