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Paternalismo da direita tem origem em seus principais intelectuais. Precisamos superar isso...

A conduta paternalista da direita em relação a esquerda, em especial a extrema-esquerda, é um dos pontos mais fracos da guerra política. Basicamente os direitistas costumam partir do equivocado princípio sob o qual esquerdistas são, em geral, estúpidos e leigos, quando de fato deveriam pensar que são mal intencionados e perversos.


Pode parecer pouco, mas isso gera problemas táticos gravíssimos. Quando você pensa que um inimigo é tolo, você não se preocupa com ele, não se prepara para enfrentá-lo. Nisso ele pode te surpreender, te dando uma rasteira a qualquer momento. No entanto, já abordei este tema diversas vezes por aqui, hoje quero aprofundá-lo no sentido de entender a sua origem.

O que considero de mais preocupante na direita de hoje, tanto a liberal quanto a conservadora, é o fato de não existirem intelectuais que atuem voltados para o campo político no sentido tático. Há cientistas políticos, há filósofos, há economistas e até sociólogos, mas é totalmente escassa a existência de articulistas táticos, estrategistas ou pelo menos racionalistas céticos. A origem pode estar diretamente ligada aos nossos próprios pensadores...

Se voltarmos algumas casas na história, podemos pensar em grandes nomes do passado e alguns que ainda estão vivos. Mises, por exemplo, foi um grande intelectual do século XX, um grande difusor das ideias liberais. Porém, em sua trajetória, ele dedicou-se muito mais profundamente ao estudo da economia e, se muito, da filosofia, não da política. Sua contribuição política para a direita é nula. Da mesma forma o filósofo inglês Roger Scruton, que certamente tem fortes contribuições para a cultura ocidental, mas é uma nulidade no campo político.

Quero que fique claro, antes de qualquer coisa, que não os estou desmerecendo. O trabalho deles foi importante e ainda é. O que falta, na realidade, é algo complementar, e isso não é obrigação de Mises, Hayek, Scruton ou Kirk, mas nossa. Estes, por não direcionarem sua obra no sentido que proponho, quando chegaram a tocar no assunto, ainda que de passagem, acabaram estimulando justamente a postura paternalista que a direita possui hoje. Para citar um exemplo específico, quero pegar uma passagem do próprio Scruton:

"O intelectual de esquerda é tipicamente um jacobino. Acredita que o mundo é deficiente em sabedoria e justiça, e que a falha reside não na natureza humana, mas nos sistemas de poder estabelecidos. Ele se opõe ao poder estabelecido, como o defensor da 'justiça social' que retificará a antiga queixa dos oprimidos." (SCRUTON, Roger - Pensadores da Nova Esquerda; capítulo 1)

Em seguida, outro trecho: 

"O intelectual de esquerda é também um 'libertário'. Ele deseja justiça social para as massas e também emancipação para si mesmo. A opressão que rege o mundo, acredita ele, atua externa e internamente." (SCRUTON, Roger - Pensadores da Nova Esquerda; capítulo 1)

Os dois trechos acima, com destaques meus, estão em uma mesma página. Ao longo do livro, mais ideias similares se repetem constantemente. Posturas idênticas ou bem parecidas podem ser encontradas no livro "A Mentalidade Anticapitalista", de Ludwig von Mises, ou em "O Caminho da Servidão", de Friedrich Hayek, ou ainda em obras de Russel Kirk. Percebe-se, portanto, que é um padrão. Qual o problema com este padrão?

Se você estimula as pessoas a pensarem que quem mata, rouba e aniquila rivais em busca de poder é um "libertário" que deseja "justiça social", naturalmente isso cria a ideia de que estamos lidando com meras vítimas de um mal maior, não com os próprios causadores deste mal. O princípio aplicado aí é o mesmo dado aos bandidos pelos defensores dos "Direitos Humanos", que os tratam como "vítimas da sociedade", quando na realidade são eles que fazem outras pessoas de vítimas de seus crimes.

Esquerdistas não são "jacobinos em busca de justiça social", tampouco querem a "libertação das massas". Todo esquerdista é essencialmente um trapaceiro, este é o ponto. Tratá-los como vítimas de uma suposta ignorância - que, a priori, nem temos como medir - é um erro grosseiro no âmbito tático. Pode ser verdade, sim, que a maioria dos esquerdistas não entenda muito sobre filosofia ou história. Pode ser verdade que muitos deles não saibam nada de economia. O ponto é que isso não tem a menor relevância. Na prática, o que realmente importa é aquilo que eles fazem e o que buscam - também já abordei isso diversas vezes por aqui.

Não devemos, no entanto, descartar os estudos da filosofia, da economia ou de outras ciências. Eles são importantes. Só não podemos confundi-los ao tentar trazê-los para o mundo real. A política funciona de forma totalmente alheia aos interesses ideológicos, eles no máximo servem como ponto de partida para algo. A política também não dá a mínima para princípios éticos e filosóficos, estes só servem para julgar os atos depois de praticados. 

O que a direita precisa, urgentemente, é superar este problema. Estes intelectuais, embora tenham contribuído muito em suas áreas, criaram também um cacoete terrível em liberais e conservadores, justamente porque se preocupavam demais com análises morais em vez de análises táticas. É corriqueiro encontrar comentários de pessoas, tanto em meu blog como em outros similares, que me dão conta da fraqueza de conhecimento técnico por parte da direita. Algumas pessoas, ao lerem minhas análises, simplesmente parecem surtar como se o que eu estivesse dizendo aqui fosse completamente absurdo, quando na realidade é extremamente óbvio.

Neste sentido, temos muito o que aprender com esquerdistas. Eles são intelectualmente muito superiores e organizados, tanto no meio político como acadêmico. No longo prazo, é isso o que lhes garante a hegemonia - que, aliás, não se engane, eles ainda possuem!
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