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Dificuldade em reconhecer erros atrasa o desenvolvimento de uma direita consciente

Ainda que haja diferenças muito claras entre partidos, movimentos políticos e grupos de ativismo mais minoritários, uma coisa todos eles têm em comum: funcionam como qualquer organização, ou pelo menos deveriam. Sempre há quem lidere, há quem opere e há aqueles que disseminam os projetos e ideias, mais ou menos como uma grande empresa gerenciada por CEOs competentes.

Uma coisa comum em grandes empresas, porém, é que bons diretores e gerentes muitas vezes precisam reconhecer seus erros para que possam corrigir o curso das ações e, assim, obter resultados melhores ou pelo menos positivos em relação àquilo que eles alcançaram no momento. Um exemplo que se pode dar aqui é o de uma campanha desastrada de marketing, 

Muitas vezes a equipe de publicidade de uma grande empresa, por melhor que seja, pode cometer erros e lançar uma ação de marketing com resultados catastróficos. O que acontece, depois disso, é que os responsáveis precisam agir para corrigir o que está errado. Se houver necessidade, os responsáveis são punidos ou, no mínimo, passam por algum tipo de reciclagem.

Em uma organização política, no entanto, não deve ser muito diferente. É claro que os objetivos podem ser outros, e é evidente que as estruturas hierárquicas não são exatamente iguais, mas ainda assim há pessoas responsáveis por suas respectivas tarefas. Em um partido, por exemplo, pode ocorrer de algum dirigente dar uma declaração pública cujo efeito seja uma reação negativa das pessoas. Também ocorre frequentemente que algum deputado ou político de modo geral proponha algum projeto de lei estúpido que cause constrangimento ao seu grupo. O que deve ocorrer, nestes casos, é o mesmo que nas empresas: correção do curso.


A extrema-esquerda, por exemplo, faz isso. Claro que ela o faz segundo objetivo torpes e nefastos, tais como alcançar o totalitarismo ou mesmo institucionalizar a corrupção. Mas ninguém disse que os objetivos são sempre bons, o que estamos discutindo é uma questão de metodologia. O que difere muito entre esquerdistas e direitistas, ao menos no Brasil, é que os primeiros têm maior facilidade em corrigir o curso de suas ações sempre que os resultados não saem como desejado - e, por desejado, não importa o que seja, este não é o foco. Já os direitistas em sua maioria têm verdadeiro bloqueio mental com isso. 

Para fins de estudo, podemos fazer aqui uma comparação que não é exatamente equivalente, mas que serve para exemplificar.

Lembre do que aconteceu quando estourou o escândalo do Mensalão petista, em 2005. Na ocasião, a extrema-esquerda estava bastante unida na base do governo Lula, mas o caso resultou em uma mudança de curso que, na prática, acabou gerando diversos planos de contingência. Não que isso tenha acontecido sob o comando de uma ou duas pessoas, na realidade foi uma questão resolvida de forma pulverizada e coletiva. Alguns permaneceram no PT e optaram por defender o partido com unhas e dentes, hoje eles estão pagando um preço por isso. Outros, porém, se dividiram. Saíram do PT, a fim de salvar a própria imagem, e foram para outros partidos ou até mesmo criaram outros partidos. O próprio PSOL, que é a segunda maior linha auxiliar petista até hoje, foi criado naquele mesmo ano a fim de se distanciar do escândalo, e isso funcionou tanto que o partido está aí, até hoje, e está crescendo.

O plano do PSOL, por exemplo, foi um plano pensando a longo prazo. Aqueles que saíram do PT e foram para outros partidos pensaram em um plano de curto prazo, o que também acabou resolvendo o problema para muita gente. Com isso, nenhum deles realmente abandonou o PT ou o projeto político da extrema-esquerda. Muito pelo contrário, eles continuaram com o plano, mas com estratégias paralelas. Isso é um claro sinal de que reconheceram seus erros e adaptaram suas ações para melhorar os resultados. É por isso que no ano passado Marcelo Freixo chegou ao segundo turno no Rio, enquanto outros candidatos até mesmo considerados mais fortes ficaram para trás.

Note que quando falo em "reconhecer os erros", como no exemplo acima, não estou tratando de questões morais, mas de questões táticas. Não é que o PSOL seja contra a corrupção do PT, este nunca foi o caso. É apenas que o PSOL percebeu que o rumo das ações petistas acabaria levando o partido a um colapso institucional como de fato ele enfrenta nos dias de hoje.

O inverso do exemplo acima mencionado é o caso do Movimento Brasil Livre. Perceba que mesmo o movimento mais eficaz que a direita criou nas últimas décadas ainda comete erros primários e se recusa a reconhecê-los. Para isso podemos pegar o caso João Doria vs Bolsonaro. 

No ano passado o MBL ajudou, ainda que de forma marginal, na campanha de João Doria em São Paulo. O grupo também foi astuto em usar a máquina tucana a seu favor para eleger Fernando Holiday, que aliás fez excelente votação. No fim, Doria venceu e assumiu a prefeitura fazendo muitas coisas boas e elogiáveis, além de ter feito diversas declarações icônicas logo no começo do mandato. Com a possibilidade de que ele viesse a ser candidato à presidência - uma possibilidade, aliás, na qual eu nunca acreditei muito - o movimento passou a apoiá-lo em demasia. 

Neste primeiro momento eu não os julgo. Doria se mostrou, no começo, um excelente nome para futuramente ocupar a presidência, tanto é que eu participei deste erro apoiando-o de forma clara aqui neste blog. É claro que houve precipitação, pois logo depois o mesmo Doria que antes dava declarações icônicas passou a adotar a postura comum aos tucanos, e aí vieram os deslizes. Diante disso o grupo, novamente, se precipitou em desespero. Quiseram, então, descolar sua imagem do prefeito. Qual foi a tática usada? Começaram a forçar um apoio ao Bolsonaro a fim de reconquistar os minions e, segundo rumores, até mesmo participar da campanha do deputado no futuro, e isso especialmente após o crescimento dele nas pesquisas.

Um dos primeiros problemas com essa tática é que ela foi pensada sem levar em conta as variáveis. Até aquele momento a família Bolsonaro já havia mostrado duas coisas a seu respeito: é emocionalmente instável, impulsiva e exageradamente oportunista. Naquela época o episódio em que Eduardo Bolsonaro atacou Fernando Holiday injustamente usando uma postagem do BuzzFeed já havia ocorrido, e isso era um sinal claro de que não dava para confiar neles plenamente, ainda que fosse até possível alguma aliança de ocasião.

O que aconteceu foi bem óbvio e previsível. Enquanto o MBL respeitava um armistício com os deputados, estes atacavam o movimento e incitavam suas hordas a fazerem o mesmo, dia e noite, por longos meses, desgastando a imagem do grupo. Depois, ainda, ficou claro que a tática adotada pelo grupo não levou em conta o alto grau de canalhice da família, tanto é que o episódio envolvendo Alexandre Frota foi uma desagradável surpresa para todos.

Agora o movimento sobrevive após ter passado por duas guerras muito pesadas. Uma destas guerras, contra a imprensa, especialmente após os casos MAM e Queermuseu, e outra guerra contra a família Bolsonaro. A única diferença é que no primeiro caso o movimento acertou por ter lutado agressivamente contra aqueles que defendem a pedofilia, enquanto no segundo caso o movimento apanhou calado e foi desgastado pelas bases sólidas do bolsonarismo.

Qual o resultado final? O MBL, hoje, está desmoralizado perante a direita porque se deixou levar pelo desespero. O grupo jamais deveria ter apoiado Bolsonaro, não havia contingência que justificasse tamanha estupidez e ingenuidade. O erro cometido com João Doria, que o grupo reconheceu - assim como eu também reconheci, poderia ter sido contornado de muitas maneiras, e esta certamente foi a pior escolha possível. O problema atual é que o MBL ainda não reconhece que errou, e isso ficou claro porque eles mantiveram a estratégia ruim por meses mesmo constatando que ela não funcionava. O preço que o grupo pagou por isso foi bastante elevado, e no fim das contas não valeu a pena para nenhum deles porque o resultado foi desastroso.

Porém, é preciso detalhar exatamente qual foi o erro aqui, e vou apontá-lo.

1) Num primeiro momento, após João Doria dar suas declarações abjetas e cometer vários deslizes, havia a clara necessidade de mudar o curso das ações para pressioná-lo. Isto o movimento percebeu e tentou corrigir.
2) Num segundo momento, coube a alguém a decisão de escolher como fazer isso, e aí escolheram apoiar alguém que é um inimigo declarado. Aqui nem é preciso explicar, já que está óbvio. Numa guerra você até pode se aliar temporariamente a um inimigo, desde que  tenha o controle da situação, o que não era o caso.
3) Mesmo após pararem com o atrito entre eles e o clã Bolsonaro, o movimento sofreu ataques contínuos e pesados, ataques de ordem moral que minavam sua credibilidade. Diante disso já estava muito claro que o armistício estava sendo praticado de forma unilateral, e neste caso era mais do que o momento adequado para abandonar a tática.
4) Ainda assim, o MBL manteve o plano por mais tempo. Continuou apanhando, sofrendo calúnias e sendo exposto aos ataques mais sórdidos. O que o movimento fez? Se calou e manteve o plano enquanto apanhava
5) No final, subestimaram ao máximo a canalhice alheia a um ponto no qual tudo saiu do controle. Foi neste momento que entraram em cena o Alexandre Frota e sua máquina de falar asneiras que ele chama de boca, os ataques orquestrados de Eduardo Bolsonaro contra Alexandre Borges, que era aliado do MBL e de Flávio Bolsonaro (ou seja, Eduardo atacou o elo entre os dois grupos).
6) Por fim, mas não menos importante, veio a divulgação de áudios privados que tinham como única finalidade jogar o MBL para os lobos.

Só depois disso tudo é que o grupo percebeu que precisava parar com aquela tática estúpida, e mesmo assim ainda se recusa a admitir que errou. Por quê? Porque a direita está recheada de gente egocêntrica e prepotente, simplesmente. Pessoas assim subestimam demais a capacidade alheia ou apenas superestimam demais a elas próprias. O que resulta disso é quase sempre uma catástrofe, e o MBL ainda teve sorte de não ter sido golpeado de morte. Apesar de estar sangrado, ele ainda resiste e espero que continue mesmo resistindo.
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